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    Estudo do Dieese mostra que redução da jornada pode levar 425 mil jovens de volta aos estudos

    1 de junho de 2026

    Boletim “Emprego em Pauta” revela que jornadas longas reduzem qualificação, aprofundam desigualdades e dificultam conciliação entre trabalho e educação. Maioria dos celetistas trabalha acima de 40 horas e recebe menos

    Longas jornadas afastam jovens da escola. É o que revela estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos).

    O debate sobre a redução da jornada de trabalho ganhou novo elemento social e econômico com a divulgação do boletim Emprego em Pauta, de maio, do Dieese. O estudo conclui que a diminuição da jornada semanal pode criar condições para que até 425 mil jovens entre 18 e 29 anos consigam conciliar emprego formal e estudos.

    Os dados reforçam argumento que ganhou força durante o debate sobre o fim da escala 6×1 e a redução da jornada para 40 horas semanais: trabalhar menos não significa produzir menos. Em muitos casos, significa criar condições mínimas para qualificação profissional, melhoria de renda e mobilidade social.

    Segundo o levantamento, quanto maior a jornada, menor a possibilidade de permanência dos jovens na escola ou em processos de formação profissional.

    Entre trabalhadores formais de até 29 anos com jornadas inferiores a 36 horas semanais, metade (50%) frequentava a escola. Entre aqueles submetidos exatamente a 40 horas semanais, o percentual caía para 22,3%.

    O cenário torna-se ainda mais restritivo nas jornadas entre 41 e 44 horas: apenas 17,1% conseguiam estudar. Entre trabalhadores submetidos a jornadas de 45 a 48 horas, o índice despenca para 14,8%. Nas jornadas superiores a 48 horas, apenas 9,7% conciliavam trabalho e estudo.

    Peso da exaustão sobre juventude trabalhadora

    O impacto é ainda mais severo entre jovens de 18 a 24 anos. Segundo o Dieese, 28% daqueles que trabalhavam exatamente 40 horas semanais conseguiam estudar. Entre os submetidos a jornadas de 41 a 44 horas, o percentual caía para apenas 20%.

    O dado mais preocupante é estrutural: nesse grupo de jovens submetidos às jornadas mais longas, 19% sequer haviam concluído o ensino médio.

    Na prática, o estudo demonstra que o excesso de trabalho não apenas compromete o descanso e a saúde mental, mas também bloqueia oportunidades futuras de ascensão social e qualificação profissional.

    Maioria trabalha mais de 40h e ganha menos

    O boletim também desmonta outro argumento recorrente do discurso empresarial: o de que jornadas mais longas necessariamente significariam melhores salários.

    Os dados mostram exatamente o contrário.

    Em 2024, trabalhadores celetistas com jornada de exatamente 40 horas semanais recebiam, em média, R$ 5.555 por mês. Aqueles submetidos a jornadas entre 41 e 44 horas recebiam apenas R$ 2.560 mensais. Valor 117% inferior.

    Mesmo trabalhando mais tempo, a maioria dos trabalhadores submetidos às jornadas mais extensas recebe salários significativamente menores.

    Segundo a Rais (Relação Anual de Informações Sociais) 2024, 75% dos vínculos celetistas do País estavam acima de 40 horas semanais. Ao todo, 36,6 milhões de vínculos formais registravam jornadas superiores a esse limite.

    A jornada média dos trabalhadores celetistas brasileiros chegou a 41 horas e 32 minutos semanais.

    Agropecuária, comércio e construção

    concentram jornadas mais longas

    O estudo mostra que a sobrecarga é particularmente intensa em setores historicamente marcados por baixos salários e alta intensidade laboral.

    Na agropecuária, 94% dos vínculos celetistas registravam jornadas superiores a 40 horas semanais. Na construção civil, o índice chegava a 93%. No comércio, alcançava 91%.

    Também apresentavam percentuais elevados os setores de alojamento e alimentação (87%), indústria (86%) e serviços domésticos (83%).

    Segundo o Dieese, a própria estrutura da jornada de 44 horas semanais ajuda a perpetuar a escala 6×1. Como a CLT estabelece limite diário de 8 horas, jornadas superiores a 40 horas frequentemente resultam em 6 dias de trabalho por semana.

    Estimativas do Ministério do Trabalho indicam que cerca de 15 milhões de trabalhadores formais submetidos a jornadas de 44 horas atuam na escala 6×1.

    Formação e produtividade caminham juntas

    O estudo também questiona a ideia de que a produtividade depende exclusivamente da ampliação do tempo de trabalho.

    Entre trabalhadores com ensino superior completo, quase metade (47%) possuía jornadas de exatamente 40 horas semanais. Entre aqueles com apenas ensino médio completo, predominavam jornadas entre 41 e 44 horas.

    Para o Dieese, jornadas extensas reduzem o tempo disponível para estudo, formação continuada e qualificação profissional; elementos essenciais para ganhos sustentáveis de produtividade econômica.

    O boletim sustenta que a redução da jornada deve ser compreendida não apenas como política de proteção social, mas também como estratégia de desenvolvimento econômico.
     
    Debate sobre tempo de vida ganha centralidade

    A divulgação do estudo ocorre em meio à intensificação do debate nacional sobre redução da jornada e fim da escala 6×1, impulsionado pela aprovação, na Câmara dos Deputados, da proposta que reduz a jornada semanal para 40 horas sem redução salarial.

    O Dieese lembra que a luta pela redução do tempo de trabalho é histórica e que a diminuição da jornada de 48 para 44 horas promovida pela Constituição de 1988 não provocou os impactos econômicos negativos previstos à época por setores empresariais.

    Agora, o novo levantamento reforça que a discussão sobre jornada ultrapassa a questão trabalhista tradicional. Trata-se também de saúde pública, qualificação profissional, produtividade e futuro da juventude brasileira.

    No centro do debate, emerge questão cada vez mais incontornável: sociedades que condenam milhões de jovens à exaustão permanente tendem também a limitar a capacidade de formação, inovação e desenvolvimento dessa juventude. (Fonte: Diap)

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